Relato · Histórias

Transformacao pessoal atraves da comunidade

Ninguém se refaz inteiro sozinho.

Tempo de leitura6 min
Publicadojan 2024
CadernoHistórias

Esta é uma história tecida a partir de vivências reais de pessoas negras em espaços coletivos brasileiros. Os nomes e os detalhes foram alterados para guardar quem confiou.

Renata tinha vinte e nove anos quando começou a carregar um cansaço que não sabia nomear. Não era o cansaço das horas extras no call center do Brás, nem o das duas conduções de Guaianazes até o trabalho. Era um cansaço mais fundo, que ficava depois do banho, que continuava depois do sono. Ela acordava e ele já estava lá, sentado na beirada da cama, esperando.

A Dona Jurema, que morava no mesmo andar e mandava corrente de oração toda quinta às seis da manhã, um dia enviou uma mensagem diferente: "Clube de leitura afro-brasileiro, todo primeiro sábado do mês, biblioteca do centro cultural da Cohab. Trazer um livro de autoria negra pra trocar." Renata leu, colocou o celular de volta na mesinha e dormiu. Mas guardou a mensagem.

Três semanas depois, num sábado em que o apartamento estava quieto demais, ela pegou o único livro de autoria negra que tinha em casa, um exemplar surrado de "Ponciá Vicêncio" que nunca terminou, e foi. A biblioteca era uma sala cedida pela Cohab, com cadeiras plásticas desiguais e um ventilador que chiava. Havia onze pessoas. Seu Bento, aposentado que vinha de bicicleta. A Simone, da mesma turma no supletivo dez anos atrás. O Tiago, dezoito anos, que chegou com um livro do Geovani Martins embalado em plástico como se fosse presente.

O combinado era falar do livro que cada pessoa trouxe. Renata abriu o "Ponciá Vicêncio" numa página qualquer e leu dois parágrafos em voz alta, com a voz que se usa quando não se tem certeza se o que se diz vale a pena ser ouvido. Quando terminou, o Seu Bento disse: "Isso aqui é a minha mãe." Silêncio. Depois a Simone disse: "Isso aqui sou eu." Ninguém explicou nada. Ali, não havia o que explicar. Naquela sala você não precisava traduzir a dor pra ser entendida.

Renata só percebeu que estava com os olhos molhados quando o ventilador virou a cabeça na direção dela. No metrô de volta, ficou olhando o reflexo na janela do vagão e pensou que talvez o cansaço não fosse só dela. Que talvez ele viesse herdado de algum lugar. Voltou no mês seguinte. E no seguinte.

Quem nunca chegou a uma roda dessas pode imaginar que comunidade é lugar de concordância. Não é. Num sábado de junho houve conflito: o Tiago achou que a professora aposentada Cleide romantizava a escravidão num trecho de Conceição Evaristo, e disse isso com uma clareza que deixou todo mundo desconfortável. Houve dez minutos tensos. A Cleide disse que ia reler o trecho em casa, e isso foi tudo. Não houve resolução bonita. Houve respeito, que é outra coisa. Comunidade que transforma não é a que aplaude, é a que confronta e sustenta a relação assim mesmo.

Em agosto, o grupo decidiu que cada encontro teria um prato. Quem quisesse trazer, trazia. Dona Jurema levou canjica com amendoim. Seu Bento trouxe pedaços de cana do quintal do cunhado. Renata foi ao mercado na sexta e voltou com uma travessa de laranja fatiada com cravo-da-índia, uma coisa que a avó dela fazia e que ela não comia desde os onze anos. Quando colocou a travessa na mesa, a Simone perguntou quem havia ensinado. "Minha avó," Renata respondeu. E ficou nisso. Mas sentiu que havia dito algo maior do que parecia, que havia puxado um fio de algum lugar dobrado dentro dela fazia tempo.

O cansaço não foi embora. O call center continuava igual, as conduções também. Mas alguma coisa havia se deslocado, como um móvel pesado que não saiu do lugar, e agora deixa ver um pedaço de parede que estava encoberto. Um corpo ferido em espaço coletivo, pela escola, pela rua, pela tela, não se recompõe num quarto fechado por mais incenso que se acenda. Precisa ser dito, espelhado, devolvido por outros corpos que carregam histórias parecidas. É o que bell hooks chamou de cura como ato de comunhão: quase nunca alguém se cura no isolamento.

Em dezembro, o grupo fez a lista de leituras do ano seguinte. Renata sugeriu "Torto Arado". A Cleide sugeriu Carolina Maria de Jesus. O Tiago sugeriu Eliane Brum, que não é de autoria negra, e a roda deixou na lista assim mesmo, porque o Tiago havia chegado sem ler quase nada e agora sugeria leitura, e isso era um acontecimento. Na última reunião, com a canjica de Dona Jurema outra vez, Renata olhou para as onze cadeiras plásticas e pensou em quanto daquele ventilador chiante já estava dentro dela. Não como metáfora. Como barulho de fundo que agora ela reconhecia.

Ela não tinha palavras para o que havia mudado. Tinha só a travessa de laranja com cravo, a voz do Seu Bento dizendo "isso aqui é a minha mãe", e o ventilador chiando do jeito que ventiladores chiam quando o calor não vai embora mas as pessoas ficam assim mesmo. Algumas perguntas só sobrevivem quando são feitas em voz alta, diante de quem não vai te deixar fugir delas na segunda-feira, quando o mundo voltar a exigir que você finja estar inteira.

Este é um conteúdo educativo. Ele não substitui o atendimento psicológico individual. Se o cansaço de que se fala aqui tem morado em você por muito tempo, procurar uma psicóloga ou um psicólogo é um gesto de cuidado, não de fraqueza. E se a dor estiver pesada demais para carregar sozinha, o CVV atende de graça, sigiloso, todos os dias, pelo telefone 188.

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Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.