Ensaio · Identidade

Espiritualidade e ancestralidade

Ancestralidade não é metáfora. É prática viva.

Tempo de leitura7 min
Publicadojan 2025
CadernoIdentidade

Na primeira vez que entrei num terreiro, tinha vinte e poucos anos e carregava uma tristeza que nenhum consultório tinha conseguido nomear. Não virei pessoa de santo. Mas vi, ali, algo que a clínica branca não me oferecia: um modo de entender o sofrimento como coisa coletiva, partilhada com quem veio antes. Marimba Ani chama isso de cosmovisão africana, um jeito de estar no mundo em que a pessoa não é ilha, é continuação. Para gente preta brasileira, essa diferença não é detalhe filosófico. É chão.

Quando Mãe Stella de Oxóssi, Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, recusou o sincretismo entre o Candomblé e o catolicismo, não estava fazendo teologia comparada. Estava defendendo a integralidade de uma cosmovisão que sobreviveu ao Atlântico, ao porão dos navios, à legislação colonial e republicana, e que se manteve capaz de nomear o mundo por conta própria. A espiritualidade negra brasileira não é só fenômeno religioso. É episteme completa: uma forma de organizar o tempo, as relações entre vivos e mortos, o individual e o coletivo. O terreiro é síntese de civilização, espaço onde a memória africana se reorganiza sob pressão sem se dissolver, e onde cabem ritual, sociabilidade, cura, arbitragem de conflitos, formação de lideranças.

A cura, aqui, não é privada. A psicologia hegemônica, filha do Iluminismo europeu, parte do sujeito isolado, quem entra na sala, paga a sessão, elabora sozinho. Funciona para muita coisa, mas falha onde a ferida é histórica. Neusa Santos Souza, em Tornar-se Negro, já mostrava que o sofrimento da população negra brasileira não cabe inteiro no molde individual: é ferida que atravessa gerações, que chega ao corpo antes da biografia. A ancestralidade oferece outra gramática. Quem faz gira, quem reza na umbanda, quem assenta orixá, quem acende vela para preto-velho está praticando uma medicina que reconhece o sofrimento como rede. A pessoa não está sozinha com a sua dor: tem comunidade, tem antepassado, tem entidade. Isso não é misticismo decorativo. É clínica, com outro nome.

Há um dado que o debate público costuma suavizar: essa memória foi perseguida de maneira sistemática. O Código Penal de 1890 criminalizou as práticas afro-brasileiras sob o rótulo de "sortilégios", e os terreiros eram invadidos, os instrumentos confiscados, as lideranças presas. A descriminalização de 1934 não encerrou a perseguição, apenas a deslocou. Os terreiros cresceram sempre contra resistência policial, midiática e religiosa. Hoje ela tem nova forma: neopentecostalismo e, em certas periferias, facções do tráfico que proíbem Candomblé e Umbanda nos territórios que controlam. Mãe Bernadete, Iyalorixá e liderança quilombola assassinada em 2023, é o nome mais recente dessa lista. Não é metáfora. É criminalística.

É nesse campo que a ancestralidade pede rigor. Beatriz Nascimento ajudou a pensar o corpo negro como quilombo e como arquivo vivo da história, território de memória e resistência. Ancestralidade não é nostalgia, é a inscrição, no presente, de saberes produzidos por corpos que sofreram violência e resistiram. Mãe Aninha, que fundou o terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, é linhagem para quem o fogo dos orixás e a resistência política eram a mesma chama. Conceição Evaristo, em Becos da Memória, narra como essa memória habita os corpos não como lembrança voluntária, mas como presença que irrompe, nos gestos, nas palavras que vêm antes do pensamento.

Existe o risco de virar estética. Nos últimos anos, ancestralidade virou palavra bonita de camiseta. Aparece em post, em campanha, em lançamento de marca. O problema é que, quando vira slogan, perde o fio. Ancestralidade sem prática é saudade performática: é citar Exu sem saber o que é padê, é postar força de Iansã numa terça difícil sem nunca ter sentado num terreiro. Búzios à venda em loja de cristais, axé como hashtag de bem-estar, estética afro-inspired em marca que nunca pisou num terreiro. Essas apropriações não são neutras: extraem vocabulário das práticas negras enquanto as comunidades que as sustentam seguem sendo alvo de violência. Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí lembra que sistemas africanos de saber têm lógica própria, não são pitada decorativa de espiritualidade. A pergunta honesta é outra: o que eu devolvo para essa linhagem que invoco? Que tempo eu dou, que corpo eu ponho, que escuta eu pratico?

Quando o orixá e o Prozac coabitam. Existe um falso dilema rondando o debate: ou espiritualidade, ou ciência. Ou terreiro, ou terapia. Essa divisão é herança cristã-moderna, não exigência da realidade. Muita gente preta vive, há décadas, essa coabitação sem drama: toma remédio tarja preta e acende vela, faz análise e joga búzios, reza pai-nosso e saúda Oxum no rio. Ancestralidade não concorre com cuidado em saúde mental, amplia. Dá contexto ao sofrimento, nome ao que não tinha nome, pertencimento a quem o racismo tentou desenraizar. Reconhecer-se parte de uma história é, em si, reorganização subjetiva que a clínica sozinha não entrega, porque a clínica sozinha não conhece a ferida inteira.

Respeitar ancestralidade não exige conversão religiosa. Exige postura. Algumas coisas que gente preta tem feito, cada qual no seu ritmo, para que a palavra não vire vento:

  • Aprender os nomes dos parentes mais antigos que ainda puderem ser lembrados, e escrever, porque memória oral também se apaga.
  • Ao buscar terapia, procurar quem é da comunidade preta ou, no mínimo, quem trabalhe com clínica antirracista e não ache que raça é detalhe sociológico.
  • Frequentar, mesmo que de longe e com respeito, espaços de matriz africana, não como turismo espiritual, mas como quem reconhece que existe saber ali que não está em nenhum livro de autoajuda.

Desembaraçar os fios entre herança africana e cristianismo, como Mãe Stella fez, é direito das comunidades praticantes, não questão para quem observa de fora resolver. E descolar o terreiro da sua função social para transformá-lo em consumo espiritual difuso é apagamento que não usa mais cassetete: usa Instagram.

Ancestralidade não resolve tudo. Não substitui psiquiatra, não paga conta, não apaga racismo. Mas faz algo que nenhuma técnica moderna faz sozinha: lembra que você não começou em você, e que o que dói em você também não começou aí. É essa lembrança que sustenta, na noite difícil, quando nenhum argumento sustenta mais.

Este texto é educativo e não substitui o atendimento psicológico individual. Se você está em sofrimento, procure uma psicóloga ou psicólogo. Em momentos de crise, o CVV oferece escuta gratuita e sigilosa pelo telefone 188, 24 horas por dia.

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