Ensaio · Identidade

Negritude afirmativa autodescoberta

Afirmar a negritude nao e cartaz de orgulho pendurado no peito. E o trabalho silencioso de refazer, por dentro, o retrato que te entregaram pronto quando voce nasceu.

Tempo de leitura7 min
Publicadojan 2025
CadernoIdentidade

Tem um momento, na vida de muita gente preta, em que a imagem do espelho deixa de ser inimiga. Nao vira amiga de imediato. Vira quase uma conhecida de infancia que voce aprende a reencontrar. A negritude afirmativa comeca ali, no instante em que voce para de pedir desculpas por existir do jeito que existe. Mas e bom dizer logo de saida, antes que a palavra autodescoberta sugira leveza que ela nao tem: isso aqui e processo, nao epifania. E historico, e politico, e coletivo, e raramente cabe num unico dia bonito.

A negritude vive na substancia, nunca no enfeite.

Vale lembrar de onde vem essa palavra. Em 1939, Aime Cesaire publicava o Cahier d'un retour au pays natal, poema longo e violento que recusava a assimilacao francesa e proclamava o orgulho da africanidade (a versao pre-original saiu na revista Volontes, em agosto de 1939). Com Leopold Sedar Senghor e Leon-Gontran Damas, Cesaire fundava a Negritude: um movimento que afirmava, contra a logica de virar "quase branco", que havia algo a recuperar e reivindicar na heranca africana e negra da diaspora. Nao como residuo folclorico. Como substancia politica. Decadas antes e depois, Abdias Nascimento abria no Rio de Janeiro, em 1944, o Teatro Experimental do Negro; Lelia Gonzalez nomeava o pretugues, a lingua que a populacao negra fez a revelia do portugues eurocentrico; Beatriz Nascimento escrevia sobre o quilombo nao como passado encerrado, mas como forma de organizacao viva no presente. O que esses projetos tinham em comum nao era uma resposta unica ao racismo. Era uma recusa compartilhada: a recusa de aceitar que ter pele preta fosse condicao a ser superada.

O discurso do empoderamento virou mercadoria rapido demais. Afirmar a propria negritude no Brasil foi reduzido, em muitos lugares, a foto de perfil com filtro, hashtag e frase de efeito. O problema nao e a foto, e o que vem antes dela. Kabengele Munanga, em Negritude: Usos e Sentidos, mostra a tensao que mora no proprio conceito: a negritude que aglutina e cria solidariedade pode, se ninguem vigia, endurecer numa essencia, numa suposta alma negra universal que repete, com sinal trocado, a mesma logica racial que pretende combater. Stuart Hall ajuda a sair desse no: identidade cultural nao e essencia fixa passada de geracao em geracao, e posicao que se constroi dentro da diferenca, em relacao continua com a historia e o poder. Ter pele preta nao e herdar uma substancia pronta. E ocupar uma posicao dentro de uma estrutura, e decidir o que fazer com ela.

Existe uma narrativa romantica, herdada de filme e de rede social, segundo a qual a pessoa preta tem um dia exato de tomada de consciencia: corta o cabelo, muda o jeito de falar, troca o guarda-roupa, pronto. A vida real e menos cinematografica. Para a maioria, despertar e intermitente. Tem dia que a negritude e festa no terreiro, tambor no peito, roda que abre espaco. Tem dia que e cansaco calado no ponto de onibus, olhar atravessado na farmacia, silencio defensivo diante de quem trabalha do seu lado. As duas experiencias cabem na mesma biografia sem se anular. Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra, ja avisava que a afirmacao nao pode se voltar inteira para um passado pre-colonial intocado, como se desse para regressar a uma inocencia anterior a violencia. A negritude que produz vida nao e arqueologia de pureza. E invencao: movimento em direcao a algo que se constroi em conjunto, nao devolucao de algo que teria sido roubado e bastaria pegar de volta.

E nesse ponto que Neusa Santos Souza intervem. Em Tornar-se Negro, de 1983, ela recusa a ideia de que a consciencia negra seria uma essencia adormecida, bastando acordar. Tornar-se negra ou negro e processo atravessado por conflito, por ambivalencia, por dor. O sistema que durante seculos amarrou a cor preta a inferioridade nao se desfaz por decreto de autoafirmacao, porque ele esta inscrito nos corpos, nas linguas, nos desejos. Por isso afirmar a propria negritude pede, antes da celebracao, um certo luto: o luto da autoimagem que a gente montou para caber nos olhos dos outros. A afirmacao verdadeira nao e o estado de chegada. E o trabalho de reconhecer o que foi internalizado e recusar, peca por peca, a autoridade daquilo.

Ninguem faz isso sozinho, e nao existe manual, mas existem pontos de apoio que costumam firmar o chao. Encontrar rodas de gente preta onde voce nao precise performar consciencia racial, so existir enquanto se reconhece. Consumir cultura preta brasileira com atencao, nao como dever de casa, e sim como espelho que devolve imagens que voce nao sabia que tinha. Conceicao Evaristo chama de escrevivencia esse gesto de puxar do corpo o que a Historia oficial nao registrou: escavar camadas de si ate reencontrar cantigas, cheiros e gestos que nenhuma escola ensinou e que, mesmo assim, estavam ali, inteiros, esperando. E, talvez o mais dificil, proteger o direito de mudar de opiniao sobre si sem pedir licenca ao julgamento publico.

No fim, a negritude afirmativa e menos sobre chegar a um lugar e mais sobre nao se perder no caminho. E a teimosia de acreditar que o corpo que te entregaram, com toda a historia que ele carrega, e um comeco digno, e nao uma falha a corrigir. A consciencia racial nao tem linha de chegada, ela se refaz a cada novo contexto. O que muda, com o tempo, e a capacidade de nomear o racismo como sistema, e de nao carregar sozinho o peso. Aqui voce nao precisa traduzir nada disso para ser entendido. A gente ja sabe o que voce carrega.

Este texto tem carater educativo e nao substitui o acompanhamento psicologico individual. Se o processo de afirmar a propria negritude estiver vindo acompanhado de dor que pesa demais, procurar uma psicologa ou um psicologo pode ajudar a sustentar o caminho com mais apoio.

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