Há um ditado que atravessou gerações de famílias negras, dito em voz baixa, quase como segredo de mãe para filha: "cabelo bom é cabelo liso". Seis palavras que condensam séculos de colonização e do ensinamento de que o corpo negro precisava ser corrigido, domado, apagado. Não era ditado inocente. Era instrução de sobrevivência, e ao mesmo tempo sentença. A primeira vez que uma criança preta ouve que seu cabelo é "ruim", ela ainda nem sabe direito o que significa bom. O adjetivo chega pronto, cola no couro cabeludo e vai ficando. Aqui você não precisa explicar por que isso pesa. A gente já carregou esse mesmo peso.
Assumir o próprio cabelo nunca foi só estética.
O cabelo como fronteira racial
Nilma Lino Gomes, em Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra, documenta o que muita gente preta viveu na pele: o cabelo crespo não é percebido apenas como diferente, mas como algo a ser corrigido. Precisa ser "arrumado" antes de sair de casa, é descrito como "difícil", "rebelde", "duro". Uma gramática de humilhação construída ao longo de séculos encontrou no cabelo seu território mais imediato. Kabengele Munanga aponta que o racismo brasileiro opera de forma difusa e ambígua, negando a própria existência enquanto organiza o mundo segundo uma hierarquia racial. O cabelo crespo virou marcador imediato: visível, difícil de esconder, delatava origem antes de qualquer palavra.
Por isso a regulação nunca ficou no gosto pessoal. Foi institucional. Escolas proibiram tranças alegando "indisciplina". Empresas exigiram o alisamento como condição de emprego. Em 2022, na região metropolitana de Salvador, a estudante Eloah Monique Tavares, de 13 anos, foi impedida de entrar na escola por causa do cabelo crespo, caso acompanhado pela Defensoria Pública da Bahia. Não é episódio isolado: a imprensa registra repetidamente atletas, jornalistas e estudantes negras pressionadas por causa do cabelo, dentro e fora das telas. O cabelo crespo resiste à imitação, ele não se disfarça fácil, e foi exatamente por isso que virou alvo predileto de disciplina desde a escravidão: raspado nos navios, coberto nas senzalas, alisado em salões que prometiam civilidade química. Cada fio guarda essa memória, mesmo quando quem o usa ainda não acessou essa história.
Tornar-se: o cabelo como processo de ser
Neusa Santos Souza, em Tornar-se negro, descreve a construção da identidade negra como processo doloroso de reconhecimento de si que passa, inevitavelmente, pelo corpo, num percurso em que o ideal de ego herdado é branco e precisa ser confrontado. Para quem cresce num país que hierarquiza estéticas, identificar-se com o próprio corpo não é ponto de partida: é conquista. Alisar, cobrir, esconder, ou assumir, valorizar, exibir, são gestos que dizem respeito a muito mais que aparência. Lélia Gonzalez insistia que a subalternização do corpo negro é também subalternização da subjetividade. Quando uma criança cresce sem ver o próprio cabelo tratado como belo, o que se instala não é só inferioridade estética: é ferida na relação com o próprio ser.
Bell hooks, no ensaio "Alisando nosso cabelo", reflete sobre o alisamento como algo que une e ao mesmo tempo fere: momento de intimidade feminina negra e de transmissão entre gerações, mas atravessado pelos padrões de beleza que tratam o cabelo natural como inadequado. Beatriz Nascimento, que pensou o corpo negro como documento histórico e lugar de memória, diria que o cabelo crespo guarda memória: é fio que conecta a cosmologias que a escravidão tentou apagar. Quando uma mão passa pelos próprios cachos e os reconhece como belos, há um gesto de repatriação, um retorno a si que é também retorno a algo muito maior.
O mito do black como chegada
Tem uma narrativa arrumadinha demais circulando por aí: a mulher preta alisa a vida toda, faz a transição, abraça o black, descobre quem é, e vive feliz para sempre. Essa história funciona bem em campanha publicitária, mas mente sobre o tamanho da jornada. Muita gente volta ao alisamento. Muita gente descobre que o black não curou a rejeição, só deslocou. Muita gente percebe que trocou a pressão do "alisa" pela pressão do "tem que assumir". Autoafirmação não é destino, é processo, e ele não é linear.
Djamila Ribeiro, em O que é lugar de fala?, lembra que reivindicar voz é reivindicar o direito à própria existência, e que isso inclui o direito à complexidade. Uma pessoa preta pode usar trança hoje, peruca lisa amanhã, black depois de amanhã, e nenhuma dessas escolhas, por si, mede a profundidade da sua consciência racial. O problema nunca foi a escolha de cada uma. O problema é o sistema que define, antes da escolha, qual cabelo tem passe livre no shopping, no aeroporto, na entrevista de emprego. A Lei Caó (Lei 7.716/1989) tipificou o racismo como crime inafiançável e imprescritível. Mais de três décadas depois, processos por discriminação capilar ainda tramitam anos em cartório, e empresas seguem construindo políticas de "boa apresentação" que excluem o cabelo crespo. A norma opera em camadas mais sutis que a lei: no comentário da colega, no olhar de quem dá aula, no critério não escrito do processo seletivo.
Cabelo e afeto são a mesma coisa
Pouca gente fala, mas o cabelo preto é, antes de tudo, um tema de afeto. Quem penteou você na infância? Quem disse que era bonito? Quem prendeu com dor, resmungando que era "pra ficar apresentável"? Essas cenas ficam. Conceição Evaristo é mestra em captar essa dimensão: na escrevivência dela, o pente, a mão da mãe, o cuidado com o cabelo carregam uma ternura que o discurso político sozinho não alcança. Porque resistência também é feita de colo.
Quando uma pessoa preta aprende, já adulta, a cuidar do próprio cabelo, a nomear a curvatura, a entender a porosidade, a achar um creme que funciona, não está só fazendo beleza. Está reparando, fio a fio, uma relação que foi interditada. É trabalho de reconciliação íntima. Atribui-se a Maya Angelou a ideia de que as pessoas nunca esquecem como foram feitas a sentir. O cabelo lembra. E ele também pode ser ensinado a esquecer a humilhação que herdou.
O que o cabelo pede
Não existe receita única, mas existem gestos que honram esse território sem romantizar. Pequenas práticas que sustentam o que o discurso sozinho não sustenta:
- Nomear a própria história capilar: quando alisou pela primeira vez, quem mandou, o que sentiu, sem julgar a criança que você foi.
- Encontrar mãos pretas que saibam cuidar do seu cabelo: salão, amizade, família, tutorial feito por quem tem o fio parecido com o seu.
- Recusar a cobrança interna de "ter que" assumir de uma vez. A liberdade também inclui o direito de mudar de ideia no meio do caminho.
A retomada da estética black power nas últimas décadas não foi moda: foi resposta coletiva de toda uma geração que encontrou, nas redes e umas nas outras, permissão para existir de outro jeito. A visibilidade não encerrou a disputa, tornou a disputa mais explícita. O cabelo volumoso ainda é chamado de "bagunça", a estética negra ainda é tratada como se fosse passageira. Não é passageira. É o que acontece quando uma criança preta vê, pela primeira vez, uma boneca com o cabelo igual ao seu, e todo mundo que cresceu sem essa boneca sabe exatamente o que faltou. Resistência, no fim, não está no comprimento do black nem no grau da curvatura. Está em parar de pedir licença para o próprio cabelo existir. E quando isso acontece, às vezes num espelho de banheiro, às vezes no meio de uma roda, o que cresce junto com o fio é uma versão de você que nenhuma química tinha conseguido alcançar.
Este é um conteúdo educativo e não substitui o atendimento psicológico individual. Se a relação com o próprio corpo ou com a sua história pesa demais, buscar uma psicóloga ou um psicólogo pode ajudar. Em momentos de sofrimento intenso, o CVV oferece escuta gratuita e sigilosa pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.