Ensaio · Identidade

Aceitacao pessoal em contexto de rejeicao

Aceitar-se onde se é rejeitado é obra coletiva.

Tempo de leitura8 min
Publicadojan 2025
CadernoIdentidade

Existe uma cena que se repete na vida de quase toda pessoa preta brasileira: o espelho do elevador de serviço, a câmera de segurança que acompanha o passo, o olhar da vendedora que muda de temperatura quando você entra na loja. Antes de qualquer discurso sobre amor-próprio, a aceitação de quem é preto no Brasil começa nesse campo minado, onde o ambiente devolve, o tempo todo, uma imagem distorcida de você. Não é pouca coisa pedir que alguém se aceite enquanto é atravessado por tantas rejeições silenciosas.

Existe uma indústria inteira construída sobre a promessa de que você pode se aceitar sozinho. Livros com subtítulos imperativos, cursos de oito semanas, terapia cara como dias de salário mínimo, tudo convergindo para a mesma receita: o problema está dentro de você, a solução também. O mercado do bem-estar transformou a aceitação num produto, e como todo produto, ele pressupõe alguém estável, já reconhecido, com acesso ao próprio rosto no espelho. Mas o que acontece quando o espelho é hostil, quando a imagem devolvida não nasce do reflexo, e sim da leitura que o mundo branco faz do seu corpo antes que você tenha tido tempo de construir qualquer imagem de si?

Frantz Fanon descreveu esse mecanismo em Pele Negra, Máscaras Brancas: o olhar do outro fixa a pessoa negra num lugar que ela não escolheu, congela ela numa identidade fabricada pela hostilidade alheia. "Olha, um negro!", grita a criança branca no trem, e naquele grito o corpo preto é destituído de si. A aceitação, nesse contexto, não é questão de autoestima. É questão de quem detém o poder de nomear. Neusa Santos Souza, em Tornar-se Negro (1983), foi uma das primeiras vozes da psicanálise brasileira a sistematizar esse paradoxo: a subjetividade preta se constitui dentro de um ideal de ego branco, ou seja, a gente aprende a se olhar com os olhos do outro, e esse outro quase nunca é generoso.

A psique absorve a rejeição como paisagem, não como evento. Por isso, tantas vezes, o desconforto com o próprio rosto, cabelo ou voz não se apresenta como racismo. Se apresenta como um incômodo vago, um cansaço, uma timidez que você jura ser só temperamento. Só que temperamento não explica tudo. Grada Kilomba, em Memórias da Plantação, descreve o racismo cotidiano como trauma: uma ferida que não sangra em público, mas estrutura o jeito de estar no mundo. Tornar-se negro, para Neusa Santos, não é simplesmente nascer com certa tonalidade de pele. É processo longo, às vezes doloroso, de recusa da identidade fabricada pelo racismo e de construção, sempre coletiva, de uma outra imagem possível. Não tem nada de terapêutico no sentido de mercado. Tem tudo de político.

Contra o amor-próprio de vitrine

O mercado descobriu a autoestima preta e transformou tudo em slogan. Camiseta com punho cerrado, filtro que afina o nariz, campanha de banco com turbante. Nada disso é, por si, ruim. Vira problema quando a aceitação é vendida como produto acabado, como se bastasse comprar a pose certa para se livrar de séculos de interdição. O amor-próprio de vitrine pede que você já chegue por inteiro antes de poder aparecer, e isso é mais uma armadilha. A verdade é menos fotogênica. Tem dia em que a gente se olha e gosta. Tem dia em que a gente se olha e queria sumir.

Há uma diferença fundamental entre a autoestima de prateleira e o reconhecimento que nasce numa sala onde outras crianças pretas também existem. A primeira opera na lógica do eu que se conserta. O segundo, na lógica do nós que se vê. No salão preto, a conversa sobre cabelo não é sobre técnica. É sobre o que acontece quando você decide parar de alisar o que é crespo por natureza. Carolina Maria de Jesus sabia disso quando escrevia o diário no Canindé sem ilusão sobre quem o Brasil achava que ela devia ser. Conceição Evaristo sabe disso quando cria personagens pretas que se reconhecem umas nas outras antes de se reconhecerem no espelho de cada uma, porque o espelho individual, isolado do coletivo, costuma devolver a imagem que o racismo instalou.

bell hooks, em Salvation: Black People and Love, defende o amor-próprio da gente negra como prática coletiva e revolucionária de resistência. O terreiro não é espaço de autoajuda: é reconhecimento, é onde o corpo preto é sagrado antes de qualquer avaliação de mercado. Audre Lorde, em Sister Outsider, insistia que sobreviver não basta, que viver por inteiro exige inventar as ferramentas que a casa de quem oprime nunca vai fornecer, porque as ferramentas do senhor jamais desmontam a casa do senhor. A diferença entre a roda de leitura preta e o curso de autoestima on-line não é estética. É estrutural. Numa, alguém nomeia o que você sentiu e não tinha palavra, e essa nomeação coletiva redistribui o peso. Na outra, você aprende a "ressignificar" experiências que quem ensina talvez nunca tenha vivido.

Aceitar não é conformar

Há uma confusão perigosa entre aceitação e conformismo. Aceitar o próprio corpo preto não é aceitar que ele seja abordado na rua, preterido no afeto, suspeito no trabalho. Muita gente, cansada de lutar contra o mundo, confunde os dois movimentos e acaba fazendo as pazes com a opressão em nome de uma suposta serenidade. Isso não é aceitação. É desistência disfarçada de maturidade. Fanon já percebia: a libertação começa quando a pessoa para de querer ser branca e também para de querer ser o preto que o branco inventou. É um lugar terceiro, de invenção.

Não existe fórmula, mas existem gestos que, repetidos, vão reconstruindo um chão interno. São práticas miúdas, quase banais, que funcionam melhor quando deixam de ser projeto e viram hábito do corpo.

  • Escolher espelhos, literais e simbólicos, que não devolvam só a versão domesticada de você: terreiros, rodas, livros, amizades que veem a pessoa inteira.
  • Nomear o que acontece. Quando algo feriu por racismo, dizer isso em voz alta, ao menos para si, desfaz o feitiço do incômodo sem causa.
  • Permitir-se dias ruins sem transformar cada um em fracasso de identidade. Ninguém deve paz interior a quem quer que seja.

A tensão não se resolve, e talvez nem precise. O que existe é a chance de construir, dentro da rejeição, espaços onde o espelho funciona de outro jeito, onde a imagem devolvida não foi fabricada pela hostilidade branca, e sim produzida no interior de uma comunidade que aprendeu a se ver com os próprios olhos. A aceitação possível para a gente preta não é chegada. É caminhada, feita de pequenas recusas a um mundo que insiste em oferecer versões menores de quem a gente é. Não é amar tudo o tempo todo. É parar de pedir licença para existir.

Este texto é conteúdo educativo e de reflexão. Não substitui o atendimento psicológico individual. Se a dor de viver atravessada por tantas rejeições está pesada demais, procurar uma psicóloga ou um psicólogo pode ajudar. E se em algum momento bater o desespero, o Centro de Valorização da Vida atende de graça, 24 horas, pelo número 188 ou em cvv.org.br. Pedir ajuda também é um jeito de se aceitar.

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Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.