Uma pessoa preta, trinta e poucos anos, conta no consultorio que sorriu enquanto era corrigida pela terceira vez na mesma frase. E que, ao sorrir, sentiu o rosto descolar do resto. O rosto ficou ali, na sala; o resto subiu para o teto. So voltou para o corpo no elevador, sozinha, tremendo. Chamar isso de estresse e subestimar. E dissociacao, e e a gramatica cotidiana de muita gente preta no Brasil.
Dissociar nao e fraqueza. E sobrevivencia.
O corpo que aprende a sumir
Na literatura de trauma, dissociacao descreve uma interrupcao na ligacao entre consciencia, memoria, identidade e percepcao do proprio corpo. Bessel van der Kolk e Judith Herman ja descreviam, ha decadas, esse desligamento como resposta adaptativa quando fugir ou lutar nao sao opcoes possiveis. O organismo desliga partes da experiencia para que a crianca continue indo para a escola, para que a pessoa adulta continue no expediente, para que quem ouviu um insulto racial na semana passada continue entrando na mesma sala. Visto assim, dissociar e um ato inteligente do sistema nervoso, nao um defeito dele.
Monnica Williams, ao estudar trauma racial, insiste que episodios cronicamente repetidos de racismo produzem respostas dissociativas que os manuais diagnosticos tradicionais sequer contemplam. No Brasil, onde o racismo se veste de cordialidade e de piada, a conta fica ainda mais sorrateira. Nao ha um evento unico para nomear. Ha mil micro-cortes, e o corpo aprende a nao estar inteiro em nenhum deles. Isildinha Nogueira diz, em outra chave, que o corpo negro aprende cedo a se desabitar, porque habitar esse corpo em publico custa caro.
Contra a leitura que so enxerga sintoma
A psiquiatria descritiva costuma ler dissociacao como sintoma a extinguir, quase sempre amarrado a abuso ou guerra, sem perguntar pelo ambiente que produziu o desligamento. Quando quem dissocia e uma pessoa preta, esse silencio sobre o ambiente nao e neutro. E politico. Grada Kilomba, em Memorias da Plantacao, mostra como o racismo cotidiano reencena traumas coloniais, e como quem e alvo precisa erguer couracas invisiveis so para atravessar a frase mais banal. Neusa Santos Souza, em Tornar-se Negro, ja nomeava, anos atras, o custo psiquico de uma sociedade que cobra do negro a negacao de si como preco de entrada. Isso nao era metafora. Era descricao clinica.
Frantz Fanon, em Pele Negra, Mascaras Brancas, descrevia a experiencia da pessoa negra diante do olhar colonial como uma amputacao do esquema corporal, um desdobramento forcado entre o corpo que age e o corpo que e olhado. Decadas depois, a neurociencia do trauma chega a uma descricao parecida por outra porta: quando a ameaca e continua, o cerebro mantem em standby circuitos de fuga que nunca se completam. O resultado e um corpo que opera a meia-luz.
Quando a saida vira prisao
O problema nao e a dissociacao ter existido. E ela nao saber ir embora. O mecanismo que salvou a crianca comeca a atrapalhar a vida adulta de quem quer intimidade, quer sentir o sexo, quer chorar no funeral de quem amou e descobre que nao consegue. O corpo aprendeu a sair e nao sabe mais voltar inteiro. Dissociacao cronica cobra pedagio: insonia, despersonalizacao, sensacao de irrealidade, dificuldade de sentir prazer.
Mas a clinica que tenta arrancar a couraca antes de oferecer seguranca esta fazendo algo violento. Ninguem abandona o escudo enquanto o campo ainda esta minado. Isildinha Nogueira lembra que habitar a propria pele e um trabalho politico antes de ser terapeutico. A pressa terapeutica, nesse terreno, costuma ser uma forma mal disfarcada de impaciencia branca com o tempo preto. Ha quem passe meses descrevendo a propria vida em terceira pessoa antes de conseguir dizer "eu". Nao e resistencia. E cautela bem calibrada.
O que fazer com isso
Para quem vive o fenomeno e para quem acompanha na clinica, alguns pontos ajudam a sair da moral do sintoma:
- Nomear a dissociacao sem vergonha. E resposta, nao defeito.
- Mapear os gatilhos estruturais, nao so os internos. Qual reuniao, qual rua, qual olhar?
- Construir ilhas de seguranca corporal antes de tentar desmontar a couraca. Frio nos pes, respiracao no ventre, o peso das maos, em lugares onde a vigilancia afrouxa por alguns minutos. Terreiro, roda de gente amiga, analise com quem entende raca, academia, igreja. O mapa e plural porque a vida e plural.
Ha uma geracao inteira de gente preta redescobrindo que nao era distraida, nao era fria, nao era insensivel. Era sobrevivente. O corpo preto que aprendeu a sumir para nao apanhar merece mais do que diagnostico. Merece um lugar onde possa, enfim, ficar. Reabitar o proprio corpo, depois de tanto tempo fora dele, e uma aprendizagem lenta, feita de pequenos retornos diarios. Nao ha grande epifania. Ha a descoberta, miuda, de que hoje voce chegou em casa inteira, sentiu o gosto da comida, ouviu a propria voz sem estranhamento. Esse retorno nao e luxo terapeutico. E o comeco possivel de uma vida mais habitavel.
Este texto e educativo e nao substitui atendimento psicologico individual. Se voce se reconheceu aqui, procurar uma psicologa ou psicologo pode ajudar a transformar essa leitura em cuidado. Em momentos de sofrimento intenso ou risco, o CVV atende de graca, em sigilo, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.