Ensaio · Terapia afirmativa

Representação na clínica: a escuta que não te faz traduzir

Procurar quem te escute com a mesma vivência não é luxo de identidade nem exigência de bandeira. É, muitas vezes, a diferença entre gastar seis meses explicando o que é racismo e começar a terapia de verdade no primeiro encontro.

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Publicadojan 2025
CadernoTerapia afirmativa

Alguém me contou que, no consultório anterior, branco e de boa intenção, passou três sessões tentando explicar por que a piada do chefe doeu. A pergunta que voltava, com aquela serenidade meio aborrecida, era se não seria sensibilidade demais. Ela pagou para ensinar. Saiu de lá mais cansada do que entrou. Quando chegou num consultório preto, a primeira frase foi: entendi, segue. E aí, finalmente, começou a terapia.

A escuta racializada se sente antes de se explicar.

A aliança não é neutra

A pesquisa em psicoterapia aponta, há décadas, que um dos preditores mais robustos de resultado não é a abordagem, é a aliança terapêutica, achado sustentado por sínteses metanalíticas amplas da literatura. Carl Rogers já dizia, lá atrás, que a consideração positiva incondicional está entre as condições da mudança terapêutica. O ponto que a psicologia brasileira ainda resiste a encarar é que, num país racializado, essa consideração não nasce de boa vontade. Ela acontece quando quem está do outro lado da sala não precisa ser convencido da sua humanidade antes da sessão começar.

Isildinha Baptista Nogueira, em trabalhos sobre a significação racial do corpo, mostra como o olhar de quem atende constitui a pessoa preta na clínica. Se esse olhar chega contaminado por um imaginário que associa negritude a desvio, força, raiva ou carência, nenhuma técnica repara. O corpo sente, e o sistema nervoso sinaliza ameaça, ainda que a fala seja impecável. Representação na clínica não é pauta de diversidade de RH. É condição de possibilidade do trabalho.

Uma psicologia feita à imagem de quem

A clínica brasileira foi erguida sobre referenciais europeus pensados a partir de sujeitos brancos, em contextos que não tinham a escravidão como fundamento social. Os currículos reproduziram o apagamento: autoria negra como ausência sistemática, e a questão racial embalada no vocabulário morno da diversidade cultural. Frantz Fanon já havia enunciado, em Pele negra, máscaras brancas (1952), algo que a psicologia institucional demoraria a admitir, que o racismo não é ruído externo à experiência psíquica, ele a constitui. Neusa Santos Souza, em Tornar-se negro (1983), mapeou o custo disso: o ideal de branqueamento não é ideologia que vem de fora, é estrutura de subjetivação. Cida Bento nomeou o pacto narcísico da branquitude, esse contrato tácito pelo qual o sofrimento que vem do racismo é minimizado ou traduzido em termos individuais. Quem chega à clínica com alfabetização racial não precisa ser convencido de nada, e isso libera o espaço para outra qualidade de trabalho.

O elogio que empobrece o debate

Tem uma narrativa circulando que idealiza a escuta preta como se fosse, por si só, melhor para qualquer pessoa preta. Isso é preguiça de pensar. Existe quem reproduza o ideal branco de ego, quem nunca tenha feito o próprio trabalho de racialização, quem esteja colonizado pela lógica produtivista da psicologia do sucesso. Partilhar o marcador racial não é garantia de nada. É ponto de partida, não de chegada.

Há um avesso do qual se fala pouco: o risco de quem atende entrar em superidentificação com quem chega, perder a função clínica, virar cúmplice quando precisaria ser testemunha distinta. Aliança racializada boa não é espelho, é encontro. Precisa de diferença suficiente para que haja pensamento, e de proximidade suficiente para que não haja tradução o tempo inteiro.

O que a representação faz, concretamente

Quando funciona, a escuta partilhada muda três coisas no corpo antes mesmo da palavra. Primeira: o sistema nervoso relaxa um grau, porque a vigilância racial pode ser desligada por cinquenta minutos. Segunda: certas cenas podem ser contadas sem nota de rodapé, o racismo do pediatra, a insegurança diante do cabelo, o peso do sobrenome numa entrevista, e isso libera tempo clínico para o trabalho real. Terceira: a pessoa encontra, no corpo de quem atende, prova viva de que negritude e pensamento crítico cabem no mesmo lugar, o que desmonta, sem discurso, o racismo internalizado.

Nada disso quer dizer que pessoas pretas só devam se tratar com quem partilha a vivência. Quer dizer que a escolha precisa ser informada, e que a responsabilidade pela competência racial é de quem atende, não de quem chega. Atender gente preta sem ter feito supervisão em clínica racializada é praticar sem licença moral, mesmo com o registro em dia.

O déficit que a preferência não resolve

O problema também não se resolve só na preferência de cada pessoa. A presença negra segue sub-representada na psicologia brasileira, e mais ainda nas pós-graduações e nas formações em psicanálise, que exigem análise e supervisão pagas durante anos. Dados do Censo da Psicologia Brasileira (CFP) confirmam essa defasagem em relação à proporção de pessoas negras na população. Num país onde pobreza e negritude se sobrepõem, os marcadores que constrangem o acesso à formação são inseparáveis da raça. O resultado é um mercado incapaz de suprir a demanda: poucos nomes pretos, concentrados nos grandes centros, com preço de mercado. Reduzir tudo à preferência de quem busca é despolitizar a questão, tratar como gosto o que é déficit produzido por uma exclusão que a própria psicologia ajudou a sustentar.

Representação na clínica não resolve o país, nem pretende. Mas cria, dentro do consultório, uma pequena zona onde a pessoa preta pode, por algumas horas na semana, deixar de explicar e começar a existir. É pouco e é tudo. É o terreiro miudinho de onde sai a caminhada de volta para a vida lá fora.

Este texto é de caráter educativo e reflexivo. Não substitui o atendimento psicológico individual nem constitui diagnóstico ou recomendação clínica. Se você está em sofrimento e busca apoio, procurar uma psicóloga ou um psicólogo é um bom passo, e o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende de graça, em sigilo, pelo telefone 188 e em cvv.org.br.

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Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.